Considerações clínicas sobre compulsões, vínculos afetivos e organização psíquica
01.02.2026 – por Lícia Vaghi
Os chamados vícios contemporâneos — especialmente os de natureza sexual e comportamental — raramente se restringem ao comportamento em si. Na clínica, o que se observa é que eles operam como tentativas de regulação emocional, organização interna e manejo do vazio psíquico.
Vícios sexuais, jogos, apostas, pornografia, relações compulsivas ou busca incessante por estímulo não dizem apenas respeito ao prazer. Eles revelam modos específicos de relação com o corpo, com o outro e com o próprio desejo.
Compreender esses fenômenos exige ir além da moralização e da lógica do controle. Exige compreender a sexualidade como um eixo estruturante da vida psíquica e relacional.
Do ponto de vista clínico, sexualidade diz respeito à forma como o sujeito se vincula, se autorregula e busca contato. Ela atravessa:
a maneira como se relaciona com o próprio corpo
a forma como busca prazer ou anestesia
o modo como lida com intimidade, dependência e separação
a capacidade de sustentar presença afetiva
Reduzir sexualidade ao ato sexual empobrece a compreensão do sofrimento humano. Em muitos casos, o comportamento sexual compulsivo funciona como uma tentativa de resolver conflitos emocionais não elaborados.
Em contextos de vício, observa-se frequentemente:
dificuldade de sustentar frustração
intolerância ao vazio emocional
uso do estímulo como forma de desligamento psíquico
repetição como tentativa de alívio
O vício, portanto, não é apenas um excesso de prazer, mas uma forma de evitar o contato com estados internos difíceis de sustentar.
Essa dinâmica se intensifica em sujeitos que funcionam bem externamente, mas apresentam fragilidade no campo da intimidade emocional.
Dentro do casamento ou de relações estáveis, o vício raramente permanece individual. Ele atravessa o vínculo, produzindo:
rupturas de confiança
distanciamento afetivo
ciclos de segredo, culpa e reparação superficial
confusão entre desejo, afeto e compulsão
A parceria passa a ser atravessada por assimetrias emocionais: enquanto um tenta controlar o comportamento, o outro tenta aliviar a própria angústia por meio da repetição.
Sem intervenção adequada, o vício tende a se tornar um terceiro elemento silencioso na relação.
A presença de filhos modifica profundamente o impacto do vício. Ainda que a criança não compreenda racionalmente o que ocorre, ela percebe alterações no clima emocional, na disponibilidade afetiva e na estabilidade do ambiente.
Do ponto de vista psíquico, isso pode gerar:
insegurança emocional
inversão de papéis
hiperadaptação precoce
repetição futura de padrões compulsivos
O vício não tratado tende a se transmitir menos como comportamento específico e mais como modelo relacional.
Em sujeitos sem vínculos conjugais ou familiares imediatos, o vício costuma se apresentar de forma mais silenciosa. A ausência de um outro que confronte ou limite o comportamento favorece a manutenção do ciclo compulsivo.
A solidão emocional, nesses casos, não se manifesta como falta de contato, mas como excesso de estímulo sem vínculo.
O tratamento de vícios de natureza sexual e comportamental exige uma abordagem integrativa. Insight cognitivo isolado é insuficiente.
Na prática clínica, torna-se fundamental integrar:
psicoterapia psicodinâmica, para compreensão das estruturas internas
terapia de casal e familiar, quando há vínculos afetivos envolvidos
abordagens corporais, que permitem acessar a experiência pré-verbal
técnicas de regulação do sistema nervoso
trabalho consciente com a sexualidade
Enquanto terapeuta com formação em sexualidade e práticas tântricas, compreendo a sexualidade não como técnica, mas como campo de consciência. O trabalho tântrico, quando conduzido de forma ética e terapêutica, favorece a reconexão com o corpo, a presença e a diferenciação entre prazer, compulsão e intimidade.
Essa integração permite que o sujeito recupere a capacidade de sentir sem precisar se anestesiar.
Vícios não são falhas morais, nem desvios isolados. São respostas psíquicas a histórias emocionais específicas.
Quando a sexualidade é compreendida em sua dimensão relacional, corporal e social, o tratamento deixa de focar apenas na interrupção do comportamento e passa a favorecer reorganização interna, maturidade afetiva e vínculos mais conscientes.
A sexualidade, quando integrada, não aprisiona — ela organiza.
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Lícia Vaghi
Psicoterapia Integrativa para Executivos e Alta Liderança
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